Questões do Terceiro Setor
Já não é novidade o aumento considerável de investimentos empresariais na área social e no marketing cultural. Segundo levantamento realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), 59% das companhias do país realizam projetos sociais não obrigatórios, voltados para a comunidade um número que cresce significativamente a cada ano. O balanço social das empresas é vital para o aumento e fidelização de clientes, bem como fortalece suas marcas num mundo globalizado e competitivo. A filantropia característica do passado é substituída nos anos 90 por uma ação mais eficaz, responsável, envolvendo funcionários, fornecedores e clientes, onde metas e resultados em ações socio-culturais são cobradas na mesma medida que se exige nos negócios. Este sinal leva empresários a sair de seus escritórios para a realidade das ruas e esta postura muda a gestão, quebra paradigmas, altera valores culturais e anuncia uma nova era, ainda não levada suficientemente a sério pelos estrategistas modernos, profissionais de marketing e dirigentes empresariais. A verdade é que, a cada dia, num movimento evolutivo inevitável, empresários descobrem que podem ser humanos e clientes exigem empresas mais conscientes, não apenas no âmbito da qualidade e preço, mas também no campo das ações promotoras do desenvolvimento social. O lucro torna-se conseqüência do conjunto das ações empresariais junto à sociedade. No fortalecimento das marcas, o investimento no Terceiro Setor e na Cultura são armas estratégicas de diferenciação entre produtos e serviços. Mas a verdade que ainda não se vê é que estamos na Era do Conhecimento e da Comunicação, entrando numa nova Era da Emoção. Neste sentido, os principais estudiosos, gestores e realizadores da arte e da cultura tornam-se os agentes fundamentais na gestão dos tempos modernos, confirmando a inspiração do poeta Ezra Pound, para quem “os artistas são as antenas da raça”. É neste sentido que o mais profundo vem à tona no óbvio. Descobrimos que a moeda do desenvolvimento tem duas faces: a coroa, que representa o “poder econômico”, e a cara, que simboliza o “poder da comunidade” sua cultura e sua identidade. Diante da face da coroa, é necessário intuir seu outro lado: os valores humanos e a responsabilidade social. Diante da face da cultura, da comunidade, é importante perceber a necessidade dos recursos, do planejamento estratégico, das metas e resultados. E por este motivo que muitas ONGS, grupos sociais, artísticos e culturais ainda não ocuparam seu verdadeiro lugar no processo de desenvolvimento, tal como previu o poeta. Há uma certa espera de que a coroa perceba a importância da cara, no contexto do crescimento integral. Esta é uma posição paternalista, que na verdade diminui a cada dia com o profissionalismo dos grupos de ação cultural e comunitária. Mas ainda existe uma resistência por parte da cara em relação à coroa um preconceito, um medo de ser engolido pelo mercado. Faltam a estes agentes da mudança o conhecimento empreendedor, que é o de saber como transformar um projeto em realidade sem prejuízo do processo criativo. Há ainda no meio social e cultural uma certa repugnância ao dinheiro, um receio de vender e cobrar, de ser comprado e vendido. Enquanto a cara se opuser à coroa e vice-versa, não haverá desenvolvimento e bem estar social - este é o desafio que todos temos de superar.